Assunto: Matas de brejo e as várzeas da Reserva Santa Genebra

em Barão Geraldo
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Foi publicado em 19/05/2004 no DO do Município,  o tombamento pelo CONDEPACC (tão esperado e cobrado) dos bens C e D - matas de Brejo, das várzeas,  e das nascentes do Quilombo- da Mata Santa Genebra.
Foi  aberto o processo de estudo  em 1992 e tombado pelo Condepacc em 2000.
Desde então aguardávamos sua publicação definitiva para a proteção deste importante  manancial hídricos da região, e tão importante para a manutenção e para a vida  da Reserva Santa Genebra.

Pequenino Histórico

A fazenda Santa Genebra pertenceu, no final do século 19 e no início do século 20, ao Barão Geraldo de Rezende. Quando o ciclo do café dizimou as florestas no interior do Estado, algumas áreas florestais foram preservadas, em parte  porque o Barão Geraldo tinha grande afeição pelas plantas. Na historia mais recente, esta mata pertenceu a José Pedro de Oliveira, e posteriormente a sua viúva Dona Jandira Pamplona de Oliveira que em 1981 doou a mata à Prefeitura de Campinas.
A reserva Florestal de Santa Genebra , mata caracterizada como mesófila semidecídua, uma das maiores matas urbanas do país abrangendo uma área de 252 hectares ,foi então  tombada pelo CONDEPACC e pelo CONDEPHAAT  o  que reforçou  sua preservação , protegendo-a do impacto decorrente da acelerada expansão urbana. Pertence ao domínio da Mata Atlântica e pode ser considerada como uma ilha de vegetação para nossa cidade e cidades vizinhas.

Bens da mata
No entorno desta mata, começando na parte sul da reserva e avançando até nas proximidades do CEASA (Central de Abastecimento Agrícola), existe  um complexo de remanescentes florestais caracterizados como florestas mesófilas higrófilas, ou florestas de brejo, protegidos por várzeas e córregos.
Estas florestas são esparsas no Brasil, caracterizando-se como florestas de fundo de vale ou áreas planas com água superficial durante grande parte do ano. Segundo parecer do falecido Professor Doutor Hermógenes de Freitas Leitão Filho, esta situação de saturação hídrica funciona como um agente selecionador de grande expressão, e as espécies arbóreas capazes de sobreviver nestes ambientes não são muitas. Isto segundo ele, implica em características que são comuns nestas florestas como:
a) número restrito de espécies arbóreas
b) espécies exclusivas destes ambientes, com distribuição geográfica ampla;
c) espécies com claras adaptações ao ambiente - árvores perfilhadas, presença de raízes
adventícias, presença  de lenticelas no caule, porte não muito elevado, grande densidade de
indivíduos arbóreos;
d) estrato herbáceo no geral, pouco conspícuo. As espécies arbóreas capazes de sobreviver
neste ambiente são poucas o que implica na característica incomum destas florestas.

Ainda segundo o parecer do botânico, as florestas higrófilas do entorno da Reserva  Municipal
de Santa Genebra  representam uma continuidade natural da mata principal, e acompanham os
mananciais que existem no fundo do vale, formando um rico complexo de matas, brejos e
pequenos lagos.
São áreas  com matas descontínuas, ligadas por brejos entre si, absolutamente impróprias para  agricultura por sua excessiva umidade, razão pela qual estes remanescentes florestais  existem até hoje.
Outro aspecto  de maior relevância para a preservação deste complexo é o fato da  Reserva Santa Genebra ser muito pobre em água, sua fauna então  abastece-se destes mananciais do entorno. Dentro da reserva existem dois pequenos mananciais de água, sendo que um deles já está assoreado pelo sedimentos provenientes do Loteamento do Real Parque, e o outro que se localiza na divisa da reserva com Paulínia, tem uma vazão pouco significativa.

Estudo das matas de brejo

No trabalho de pesquisa realizado por Andrea P. Spina e Washington M. Ferreira  foram amostrados 145 espécies, 109 gêneros, 55 famílias de Angiospermas, (130 espécies de Magnoliopsida e 15 de Liliopsida);  destas, 66 espécies arbóreas, 31 espécies arbustivas, 8 subarbustivas,  9 espécies herbáceas, 27 espécies de lianas, 2 espécies de plantas herbáceas- epífitas e 2 espécies de plantas epífitas parasitas.  A Aroeira, Pindaíba do brejo, Embaúba, Ipê amarelo do Brejo, Canela, Massaranduba, Cabreúva, Jacarandá de espinho, Cedro do Brejo, Figueira, Suinãs, Ingás , Cambuí, Pau de Viola, Canjerana, Copaíba etc... são os nomes comuns de algumas das espécies citadas.

No estudo fitossociológico realizado nesta baixada, entre 1993 e 1994, mais específicamente até os fundos do CEASA, pelos  pesquisadores Maria Teresa Zugliani Toniato e Hermógenes de Freitas L. Filho foram amostrados 955 índivíduos de 55 espécies, 44 gêneros e 29 famílias. Segundo o estudo a família mais rica em espécies foram Myrtaceae (9 espécies),  lauraceae(6), Meliaceacea e tapirira guianensis(Anacardiaceae), representadas por um grande número de indivíduos.
Este estudo foi desenvolvido visando contribuir para um maior conhecimento da composição florística e estrutura fitosociológica das florestas higrófilas e oferecer suporte cientifico para proteção desta unidade florestal, já que estes ambientes abrigam espécies exclusivas e são muito suscetíveis à degradação e pouco estudados.
Ainda,  segundo este estudo,  essa florestas revelam um padrão florestal característico, com peculariedades florísticas estruturais e fisionômicas que as diferenciam das demais unidades florestais do Estado de São Paulo.

Estes fragmentos de matas de brejo situados nesta planície de inundação ocorrem normalmente sobre solos hidromorfos, em locais permanentemente encharcados onde existe afloramento de lençol freático. A superfície do terreno é bastante irregular e a vegetação cresce sobre elevações de terreno que ficam circundadas por canaletas de água que se mantém em caráter permanente mesmo nas épocas  mais secas do ano. Embora sujeitas a fatores de perturbações adjacentes como  as queimadas, a cultura de cana de açúcar, rituais de umbanda, corte seletivo de espécies como por exemplo das palmeiras Euterpe edulis e Syagrus romazzoffiana para a extração do palmito, foram observadas também descarga de substâncias químicas e óleo.  Os fragmentos de áreas brejosas são extremamente vulneráveis á condição de encharcamento permanente do solo e estão cada vez mais raros, devendo por esta razão merecer especial atenção na implementação de medidas de preservação e recuperação.
Trata- se de um ecosistema praticamente extinto em Campinas. A vocação desta área é unicamente a preservação  visto a impossibilidade de desenvolver qualquer atividade em seu interior.

Outro aspecto importante na preservação deste ecosistema seria em relação a fauna. Segundo a avaliação da avifauna feita pelo  do Prof. Dr. Wesley R.Silva observa-se  que por se tratar de florestas com reduzida dimensão e circundados por vegetação de pequeno porte( brejos, pastos, plantações etc.) a sua avifauna é marcada por uma composição em espécies, típicas de ambientes mais abertos e alterados.

O parecer da fauna de mamíferos não voadores, feito pelo Prof Dr Emydio Leite de A. Monteiro Filho, coordenador do laboratório de Biologia e Ecologia de vertebrados da Universidade Federal do Paraná, com estudos na área da reserva Santa Genebra e nas matas de brejo atesta para o importante suporte que o complexo de matas hidrófilas e brejo  é para a fauna da reserva Santa Genebra. Ele afirma que nas matas de brejo podem ser encontrados como membros residentes uma série de pequenos mamíferos como os gambás(Didelphis albiventris e Didelphis marsupialisa) a  cuíca (lutrolina crassicaudata), o preá (cavia aperea) e pequenos roedores silvestres do genero Oryzomys e Bolomys. Ainda para os vertebrados, a grande importância das matas de brejo da periferia da reserva de Santa Genebra se deve ao fato de estar atuando como fonte de alimento para parte considerável da fauna .
O ratão do banhado (myocastor coypus), a capivara podem ser visto constantemente nestes áreas inundadas e são muito perseguidos pela caça e pelos cães domésticos O veado mateiro, mazama americana, que sofre grande pressão antrópica e que ocasionalmente ocorria no interior da reserva, buscando  as matas do brejo para alimentar-se de gramíneas lá existentes, já não são mais vistos. O mesmo ocorre com o gato mourisco, herpailurus yagouaroundi, o furão, e o mão pelada, que por serem predadores com dieta especializada, estão em frequententemente em baixas densidades populacionais restritos as matas relictuais.
 

Bacia do Ribeirão Quilombo

No Plano de gestão urbana de Barão Geraldo o capítulo que trata da bacia do Ribeirão Quilombo - que abrange grande parte da área em questão, onde estão suas nascentes - atesta que esta bacia se encontra extremamente poluída por esgotos domésticos e industriais. Os esgotos domésticos são lançados diretamente no  Ribeirão Quilombo pelos bairros São Marcos, Campineiro e adjacências. Apresenta várias planícies de inundação  já ocupadas por favelas. Esta bacia tem significativa importância para a construção do imaginário coletivo de áreas verdes e rural nos moradores de Barão Geraldo, pois nela se encontram fragmentos de mata nativa além do corredor migratório que deve interligar as matas de brejo próximo ao CEASA com a Reserva Santa Genebra e várias propriedades rurais com produção de hortigranjeiros.  No Plano local de Gestão Urbana de Barão Geraldo, foi proposto um projeto especial de corredor migratório  da Reserva Santa Genebra e as florestas brejosas. Configurando uma faixa de grande valor ambiental criou-se um corredor migratório, como unidade de conservação.

BEM NATURAL  C

Localiza-se ao -sul- da Reserva, e se estende para além da área envóltória de 300 metros do
Bem Tombado.(reserva) Trata-se de uma faixa de vegetação arbórea nativa integrado sobretudo por arbustos de menor porte, os quais fazem parte também árvores menores. Este sub-bosque está a apenas 15 metros de distância da reserva e funciona principalmente como refúgio de algumas espécies animais.
Acompanhando as nascentes, na porção mais próxima da mata, a vegetação se encontra em

estado de regeneração, pois foi uma área onde constantes incêndios aconteciam.

Junta-se então a outra parte, ao Bem natural D , já na parte suleste, e segue até os fundos do CEASA.
E todo margeado pelos canaviais  da Usina Ester (arrendatária) sendo em um de seus pontos finais—o que se alonga para fora da Reserva— está a uma distância de  aproximadamente 5 mil metros das favelas, Jardim São Marcos e Campineiro. Abrange uma área  de aproximadamente 11.000 metros quadrados e se encontra na zona rural do município de Campinas.

Bem Natural  D

Localiza-se na parte sul-sudeste da reserva, não sendo possível estabelecer o limite entre a reserva da Mata Santa Genebra  e o bem natural, seguindo este complexo até os fundos do CEASA na Rodovia D. Pedro I. 
Situado a partir do bem tombado(reserva Santa Genebra) até uma faixa de 300 metros, e áreas que utilizam os 300 metros para cultivo de hortas, clubes de futebol, chácaras de lazer e uma gleba de propriedade de familiares da Sra Jandira Pamplona de Oliveira.
É margeada pela  direita em toda sua extensão, até aos fundos da CEASA pela propriedade da Família Pamplona, com plantações de cana de açúcar.

Constitue-se em um conjunto de matas típicas de solos encharcados, (florestas mesófilas semidecíduas higrófilas) associados aos mananciais, formado sobretudo por arbustos, que possuem mais de um caule lenhoso chamado de vegetação herbacéa e arbustiva que faz parte da bacia do Ribeirão Quilombo.  Também se constata um grupo de árvores exóticas (eucaliptos) no meio de uma das porções de mata, mais já existindo recuperação da mata nativa com cobertura por grupos de musgos, resíduos de estratos superiores (folhas e ramagens) plantas rasteiras etc. Este complexo  de florestas e brejos se estende  para muito além dos 300 metros  da área envoltória da Reserva Santa Genebra.
  O ponto deste complexo é o mais impactado,  pois parte dele está dentro da área de  expansão urbana onde o  CEASA de Campinas, e os bairros São Marcos, Campineiro lançam seus esgotos para o fundo do vale contaminando os mananciais.

Pelo fato de serem áreas abertas, sem nenhuma fiscalização essas áreas  foram alvo da caça predatória intensiva. No interior destas florestas foram por diversos anos  encontrados armadilhas, cevas e restos de animais mortos .
Segundo levantamento com monitoramento realizado pelo EMBRAPA pelo satélite Landsat TM5, a área total deste complexo é de 149 hectares, com margem de desconto de 10% devido a enchentes frequentes na área.
Seu tombamento pelo CONDEPACC oferecerá um maior suporte para a sua conservação(esperamos) pois suas  características são muito susceptíveis à degradação e muito pouco estudadas.
 

Hoje todos sabemos que a Reserva da Santa Genebra é destinada exclusivamente para pesquisas-conforme termos de sua doação- funcionando como um grande laboratório para pesquisas biológicas, interando plantas e animais, dinâmica de populações animais e vegetais, solos, educação ambiental, monitoramentos de fatores físicos e alterações naturais antrópicas.
Aspectos básicos ligados ao inventário brasileiro de flora e fauna não existem de forma organizada e é lastimável que muitas espécies de animais e vegetais chegassem a extinção sem que se pudesse tomar as medidas adequadas para SUA PRESERVAÇÃO. Em função destas constatações históricas se impõe a necessidade de medidas concretas para a preservação dos fragmentos remanescentes. Entendemos que, a preservação legal, não se deve prender apenas a porção que se encontra dentro da área envoltória, mas a preservação total da área.
A importância da incorporação deste complexo ecológico ao patrimônio biológico da Reserva Municipal Santa Genebra  será fundamental para que seja inserida no plano de manejo e  nos projetos de recuperação das matas de brejo e das nascentes que formam a bacia hidrográfica do Ribeirão Quilombo, na recuperação de recursos hídricos tão importantes para região, e na proteção de um refúgio de fauna imprescindível para a sobrevivência das espécies ainda existentes

 “Independente de qualquer outra consideração, a destruição dos fragmentos representa um considerável prejuízo econômico e uma completa falta de visão sobre investimentos futuros.


A devastação é, sem dúvida um dos maiores retrocessos econômicos deste século, por privar gerações futuras de inúmeros benefícios ainda desconhecidos.”
Prof. Hermógenes F. Leitão Filho.( botanico,  já falecido) defensor intransigente do meio ambiente- ambientalista da PROESP
 
 

         Marcia Helena Corrêa-PROESP
         Representante das Entidades Ambientalistas
              CONDEPACC

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