Dinheiro gera inflação ou deflação?

A.C. Medawar

A mítica teoria de Bodin

Igor A. Caruso, psicanalista e fundador da escola vienense de Psicologia Profunda, com ramificações em muitos países da América latina, escreveu a seguinte frase: "O natural do homem é ser anti-natural". Por associação e por extrapolação podemos dizer também que o absurdo se torna normal para o homem desde que se familiarize com ele. Podemos citar aqui uma infinidade de exemplos. O dinheiro em abundância gera inflação ou deflação? A teoria quantitativa da moeda do francês Jean Bodin, formulada no século XVI e que diz que cria inflação, é certa ou errada? Vamos nos deter um pouco sobre a mesma, contestando-a. Contudo, precisamos deixar constando aqui, com um certo destaque, a essencia de nosso reciocinio:

Somente pode ganhar dinheiro para consumir aquele que, ao trabalhar, gera um produto cujo valor é superior ao valor do dinheiro que recebe em troca. Caso contrário, quem o paga falirá. Isso é uma constante em todas as escalas, em todos os degraus, em todos os setores e em todas as épocas senão o próprio capitalismo seria uma prática falida. Não importa o valor do dinheiro aplicado ou onde foi aplicado, não importa se o mesmo se destina a pagar um produto a ser gerado na hora em que o trabalho estará sendo executado ou para pagar um produto gerado no passado (salários atrasados numa administração pública, empreiteira credora de um produto realizado anos atrás ou produtos a serem completados no futuro tais como estradas de ferro ou usinas elétricas, etc.). E como hoje em dia se admite que um homem atrás de uma máquina produz por cem homens, ou seja 200.000 horas/homens/ano no ano 2000 contra 2.000 horas/homens/ano no ano de 1850 (o trabalho que ele fornece poderá financiar folgadamente os empreendimentos de longa maturação e eliminar o perigo de uma inflação, setorial e passageira, que antigamente se esboçava até o surgimento e a disponibilização do produto), o dinheiro em abundância só pode gerar deflação pela proliferação dos produtos que se tornam disponíveis, e não inflação. Ele só poderia gerar inflação se fosse derramado a partir de aviões ou helicópteros por cima de uma massa humana ociosa). Existem apenas inflações orquestradas, deliberadamente produzidas, para o pagamento de sanções de guerras ou dividas externas, onde quem produz trabalha o mês inteiro e só consegue consumir parte de que ele cria e isso por causa do aumento proposital dos preços, habilmente disfarçado no que em macroeconomia chamam de inflação.

A teoria de Bodin é ensinada até hoje nas faculdades como sendo, quase, uma revelação de essência divina e uma realidade inconteste. O matemático norte-americano Fischer criou uma equação ridícula para medir a inflação que seria criada a partir da circulação excessiva da moeda: MV (massa da moeda multiplicada por sua velocidade) seria um dos termos dessa equação, tendo ele esquecido que, quando a massa da moeda é grande, sua velocidade diminui e vice versa, compensando-se assim permanentemente e fazendo com que o único valor que se possa dar ao MV de Fischer seja simplesmente zero.

As centenas de milhares de economistas que o mundo conhece ou já conheceu defendem a teoria quantitativa da moeda. Zélia Cardoso de Mello, que era professora de economia numa das mais prestigiosas universidades brasileiras, acreditava piamente que o dinheiro gerava inflação e, como titular da pasta da economia de Collor, confiscou todas as poupanças do povo brasileiro. No segundo mês após o confisco a inflação voltou a subir e, quando chegou a hora de devolver as economias do povo, 17 meses mais tarde, a inflação tinha atingido, em média, os 15% ao mês (isso nos dá uma idéia bem clara da envergadura de Collor e de seus ministros). O povo tem medo da inflação que o excesso de moeda, segundo Bodin, provocaria, e os governos brasileiros vivem afundando o Brasil na miséria em nome do combate à inflação. O "real" substituiu a inflação pelo desemprego e ninguém se deu conta que desemprego e inflação são as duas faces de uma mesma moeda, ou seja, aquela criada para acorrentar o crescimento do país. É claro que este absurdo favorece muita gente, enriquece ainda mais os mais ricos e espolia mais ainda os humildes. É assim que o absurdo se torna normal, pois aqueles que se beneficiam dele têm como propagar seus falsos conceitos, impondo-os como se fossem verdades.

Por outro lado, criar capitais, economizar, acumular o que sobrou do salário ou do lucro usufruído era necessário para financiar o trabalho indispensável para criar novas riquezas para os filhos, para a população que cresce, para os novos consumidores que surgem com demanda efetiva, para o futuro. Hoje em dia o capital está se tornando cada dia mais dispensável, mais fácil de se materializar, mais "inútil" pois o tempo entre a remuneração do trabalho e o surgimento do produto tornou-se tão breve, quase fugaz, de forma que a remuneração do trabalho pode quase se operar pelo próprio produto gerado por este mesmo trabalho.

A riqueza é criada pela mesma máquina potente e tão duradoura ao ponto que o dinheiro nela investido se dilui e desaparece. Ademais, o consumo já ficou muito atrás da produção. Até porque o consumo é limitado: ninguém pode comer cem quilos de carne por dia, morar ao mesmo tempo em dez casas com dez carros nas garagens e vestir trinta ternos no mesmo lapso de tempo nem armazená-los inutilmente. O limite da produção se situa apenas no esgotamento da matéria prima e de todas e inúmeras multiplicações da mesma que a tecnologia descobre todos os dias, fazendo com que este limite recue e a potência da máquina produtora aumente. A máquina, cujo preço é determinado pelo que ela custa e não pelo que ela gera, produz cada vez mais e custa cada vez menos ao ponto de zerar seu preço nos primeiros meses de uso e ficar trabalhando praticamente de graça durante uma eternidade.

Admitindo-se, por outro lado, que as nossas necessidades tenham ficado dez vezes maiores (pode ser em objetos diversificados mas não em tempo de trabalho para criar estes objetos nem em valor de troca), um só homem pode prover todas as necessidades (inclusive as dos respectivos dependentes) de dez outros que podem ficar inativos. Se dez por cento destes últimos que se encontram alimentados, alojados e com todas as suas necessidades, bem como as de seus familiares, cobertas, trabalhassem em empreendimentos de longa maturação – barragens, usinas elétricas ou nucleares, construção de estradas, de portos e aeroportos, etc. – tampouco haveria necessidade de capitais para tais empreendimentos. Neste último caso só faltariam a tecnologia e os produtos criados no exterior por tecnologias que o País ainda não possui bem como algumas poucas matérias-primas que só se encontram no mundo afora. Tudo isso pode ser obtido por escambo ou por divisas resultantes de algumas exportações. O emprego maciço do capital estrangeiro só se explica pelo interesse que nele encontram aqueles que participam dos empreendimentos financiados por estes capitais.

O problema talvez resida numa pergunta lancinante: POR QUE NUM DOS PAÍSES MAIS RICOS DO MUNDO VIVE UM DOS POVOS MAIS MISERÁVEIS DA TERRA? Realidade que se torna natural para quem aqui nasceu, que deixou seu olhar se familiarizar com tudo o que o rodeia ao ponto de introjetar o absurdo transformando-o em coisa banal. Transformar o brasileiro num mendigo que ignora estar sentado por cima de um tesouro que lhe pertence, para muita gente é o máximo da normalidade. As faculdades de economia, de direito, de filosofia, de sociologia, de jornalismo, os cursos de lógica e de matemática encobertam o absurdo.

Dinheiro gera inflação?

Voltamos ao absurdo pelo qual já passamos e que diz que DINHEIRO gera INFLAÇÃO. Ele é tão enorme que serve para escravizar todos os povos subdesenvolvidos e que se encontra largamente compartilhado pelos próprios ricos como sendo uma VERDADE tão ofuscante como o sol do meio dia singrando um céu de brigadeiro: (este texto será propositadamente repetitivo, pois, como nas sínteses provisórias da psicanálise é preciso repassar várias vezes pelo mesmo lugar, pela mesma situação e fazer inúmeras sínteses, a maioria provisórias, para chegar à definitiva, que iluminará retrospectivamente, o quadro inteiro). Como já vimos a verdade é outra: DINHEIRO gera produtos em excesso que causam DEFLAÇÃO.

Ninguém tem acesso ao dinheiro antes de trabalhar para ganhá-lo e ao trabalhar gera riquezas que banalizam os produtos e os barateiam (o dinheiro não tem como se tornar fator de consumo antes de preencher seu papel de fator de produção e isso permanentemente enquanto gira, pois sempre passará pelo setor produtivo em primeiro lugar sobrando apenas para o consumo o que não foi poupado, seja em espécie seja em produtos).

Jean Bodin foi contestado na época por seu compatriota Malestroit. Vingou o ponto de vista de Bodin. Naturalmente, para os ricos a mentira de que o dinheiro em excesso gera inflação é muito conveniente pois, ao levar os governos a diminuir o meio circulante, encarece o preço do dinheiro que possuem e permite aos governos que os representam desacelerar a economia e, por conseguinte, baratear a mão-de-obra. E para os países ricos constitui uma arma mais escravizadora do que imensos exércitos equipados com armas nucleares. A China estava tendo recentemente um crescimento da ordem de 12 a 14 por cento ao ano gerado deliberadamente por um déficit público generosamente aceito (realizavam-se as despesas necessárias para a máquina produtiva independentemente de terem sido previstas ou não no orçamento). A União Européia tem determinado que os países membros não podem ter um déficit público superior a 3% do PIB. Isso não foi feito para proteger os países perdulários contra eles mesmos, mas para impedir que os mesmos acusem um crescimento que com certeza se fará em detrimento dos outros membros da União. A Itália venceu em poucos anos o subdesenvolvimento acusando, às vezes, déficits públicos da ordem de 13 e 14%, cifras que o Brasil desconhece.

Raymond Aron, filósofo e economista francês de fama internacional além de ser um homem de direita insuspeito, publicou na revista parisiense L'Express, em 26 de fevereiro de 1982, num número especial sobre a economia mundial, um estudo comparativo de várias economias mundiais onde ele conclui: "Impressiona o fato de não haver correlação alguma entra a taxa da alta dos preços e o rigor do controle orçamentário". O dinheiro emitido para cobrir o déficit capitaliza o país. Os governos brasileiros, por obediência ao FMI, querem eliminá-lo. O projeto de lei dito de Responsabilidade Fiscal representa o ato mais irresponsável que se possa cometer em relação a um país como o Brasil onde existem tantos famintos.

Um diálogo com os bem-pensantes

Voltemos a enumerar alguns dos absurdos que vivemos. Seria normal que num país como o Brasil houvesse de um lado grande abundância de matéria-prima e, de outro, 13 milhões de desempregados, enquanto 112 milhões (70% da população) vivem numa penúria que atinge, às vezes, a mais degradante miséria? Não se trataria de um dos maiores absurdos do mundo?

Não, diriam aqueles para quem tudo isso é normal, faltam os vales (dinheiro) que se dão no fim do dia ou do mês, ao trabalhador para que possa comprar pão, leite para os filhos, remunerar o médico que atenderá a mulher doente, pagar o aluguel da casa e a escola dos filhos. Esses vales são importantes porque medem o tempo que o trabalhador gastou para ganhá-los e o tempo que os produtos que ele vai adquirir com eles levaram para serem confeccionados. Os dois tempos têm que ser iguais senão alguém sairia roubado.

Porém, o homem lúcido tem um outro ponto de vista: já que as indústrias vão passar a produzir mais, por que o governo não aumenta seu estoque de vales (dinheiro), vales estes que só serão disponíveis para quem estiver produzindo valores superiores ao valor dos vales recebidos? A resposta dos bem-pensantes e bem informados seria de novo não, porque, acrescentariam eles, isso geraria inflação. Mas os vales, informariam eles, podem ser tomados emprestados no mundo afora onde eles se chamam marcos, livras esterlinas, francos ou dólares. O preço do aluguel não é tão caro assim.

Mas, ao serem importados, volta a pessoa lúcida a indagar, não têm que se transformar em vales nacionais (dinheiro) para poderem circular no país e atender às necessidades daqueles onde eles já fazem falta? E neste caso não gerariam igualmente inflação segundo as teorias dos monetaristas? Não, retorquiria o bem informado, porque os governos nacionais retiram de circulação (recolhimento compulsório) quantidades iguais de dinheiro nacional que esterilizam nos cofres dos bancos oficias, onde ninguém terá acesso a elas.

Já vimos que dinheiro não faz inflação porque gera produtos que acabarão, se não houver nenhum controle governamental (os governos devem atuar como chefes de orquestras apesar de que pensam os safados e os liberalóides), por provocar deflação. A trapaça que os governos ditos nacionais fazem para permitir que se remunere regiamente os agiotas do mundo afora, que emprestam divisas para os países que governam, é simplesmente asquerosa. Permitem a entrada de divisas que vencem juros, oneram aqueles que as recebem e o país onde estes últimos se encontram, para favorecer os agiotas internacionais e anulam o efeito benéfico do dinheiro, que só pode estimular a produção, ao esterilizarem parte igual da moeda nacional.

Trata-se aqui de uma maçonaria internacional. De uma classe de seres humanos que tiveram acesso ao dinheiro porque trabalharam para tanto ou porque são contrabandistas laocianos, árabes indolentes que acham que Deus lhes mandou o petróleo que encontraram por baixo de seus traseiros, felizardos europeus ou norte-americanos que souberam explorar seus próximos, ou trapaceiros de todos os bordos.

Por que os governos ditos nacionais não emitem o dinheiro necessário para o desenvolvimento de suas indústrias, dirigindo-o diretamente para o setor produtivo, deixando os impostos, tão necessários para o bem-estar do país, serem gerados pelos produtos que este dinheiro cria (o imposto é parte intrínseca do produto e nunca poderá gerar inflação; poderá no máximo elevar o patamar dos preços, como nos países ricos, mas não provocar altas continuas e recorrentes dos preços como numa situação inflacionária)? Os governos nacionais cobrariam por este dinheiro um preço razoável de mais ou menos 6% ao ano e deixariam as viúvas do Mississipi, tão caras ao senhor Camdessus, competir com eles enquanto houver dinheiro disponível vindo de onde vier. Esta conduta, num país como o Brasil, que possui matéria-prima em abundância, seria de salvação nacional e de uma segurança absoluta.

A arma da Globocolonização

Agora já sabemos porque o governo brasileiro não quer baixar os juros que nada tem a ver com inflação (os que possuem dinheiro que pode ser aplicado a juros, não têm porque correr às compras se os juros não forem altos, pois não têm necessidades para serem satisfeitas e aqueles que têm necessidades prementes não têm dinheiro que possa ser aplicado a juros, caso estes estejam na estratosfera). Já imaginaram no Brasil, onde falta tudo para o povo, dinheiro a 6% ao ano? As indústrias tomarão este dinheiro e darão prazos de 48 meses ou mais para os compradores de seus produtos. Estes últimos quando sentirem que as prestações já cabem nos seus orçamentos correrão às compras como aves famintas. Em poucos anos o Brasil passaria a crescer a razão de 12, 13 ou 14% ao ano, tornando-se uma potência econômica. Não faltariam mais nem médicos, nem fiscais, nem policiais, nem juizes, nem professores nas escolas, nem leitos hospitalares, nem transportes públicos onde atualmente os seres humanos são socados como gado, não haverá mais pobreza e criminalidade e as pessoas não precisariam mais se drogar para fugir da realidade que os rodeia, quer seja no país ou nas suas próprias casas (há aqueles que se drogam por excesso de riqueza, mas esta é uma outra história) e haverá casas para todo o mundo. Mas faltará boa parte dos quinhentos milhões de consumidores (os latino-americanos) para o mundo rico e talvez outros tantos no mundo afora que estariam consumindo produtos brasileiros.

O que acontecerá se a trapaça for descoberta? Os países ricos não poderão mais explorar os países subdesenvolvidos pela aplicação de seus capitais e terão, para alcançar seus objetivos, que mandar soldados para atingir a GLOBOCOLONIZAÇÃO que a aplicação de seus capitais lhes permite. Aí faltariam apenas os missionários que precediam os mercadores e os soldados no século XIX.

Acabamos de ver como funciona a mistificação à qual nenhum povo pode escapar por mais inteligente que seja (e o povo brasileiro é um dos mais inteligentes que eu conheça). Assim sendo os povos não têm os governos que merecem mas aqueles que os poderosos lhes impingem.A.C. Medawar é escritor e publicou, entre outras obras, "Um bilhão de dólares", editora Tchê, 1988, "A Ordem Satânica – reflexões sobre a moralidade burguesa", editora Alfa-Omega, 1984, "Quando o fruto amadurece", Difel Editora,1961 e o FMI e a farsa da inflação brasileira, Conect Editora, 1985.

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