28 de março de 2011
 

Crueldade Desnecessária

Morte das capivaras, inclusive em Barão Geraldo

 

  Capivaras no Ribeirão das Pedras em Barão Geraldo Foto: Barão em Foco


Aspectos técnicos sobre o papel da capivara e dos carrapatos na
transmissão da Febre Maculosa Brasileira (FMB)


Dra. Ingrid Menz
CRMV-SP 1569 - Formada na Universidade de São Paulo
Doutorado na Faculdade de Medicina Veterinária de Hannover, Alemanha

Como a polêmica do Lago do Café deixou muitas dúvidas na população em geral, preparou-se um texto para dissipar o medo e esclarecer o real motivo da oposição ao abate das capivaras como solução ideal.

Em 2008, quando os setores de saúde da Prefeitura já tinham decidido pelo abate das capivaras, o prefeito Hélio de Oliveira Santos cancelou a determinação, orientando para que no local fosse fechado e criado um Centro de Pesquisa da Febre Maculosa. A Secretaria da Saúde, então, convocou uma reunião de especialistas, no início de 2009, na Prefeitura da Campinas, onde foi decidido que as capivaras seriam isoladas, distantes da área de visitação, separadas por sexo, e o ambiente seria tratado contra os carrapatos, com barreira de contenção. Mais de 2 anos se passaram e as capivaras se reproduziram, portanto não foram separadas por sexo, o capim continuou alto, e o controle dos carrapatos não foi realizado. O parque tem mais de 330.000 m2 e a área onde foram confinadas era de 2.300 m2, portanto somente 0,7% da área.

Só relembrando: Um casal de capivaras foi colocado no parque na época do Prefeito Jacó Bittar, portanto não migrou deliberadamente para lá.

Agora aos fatos:

1-      Sobre as capivaras

As capivaras NÃO transmitem o agente da FM a seus filhotes, nem a outros animais ou humanos . Somente quando são picadas por carrapatos contaminados, infectam-se, transmitem por 9 -12 dias e tornam-se imunes (sorologia positiva – presença de anticorpos), sem a presença da riquetsia (Rickettsia rickettsii - agente da Febre Maculosa) no sangue, portanto não são perigosas, ao contrário do que se divulga na mídia.  A capivara, uma vez infectada, é capaz de contaminar carrapatos somente no período de 7-10 dias após exposição ao carrapato contaminado (Souza ET AL, 2009).

A capivara é meramente um alimento, fornecendo sangue suficiente para sustentar os carrapatos. Provavelmente a maioria das espécies de animais tenha este mesmo papel (cavalos, antas, gambás, preás, etc), o que implica em analisar se há outros hospedeiros que seriam alimento para os carrapatos.  Não existem estudos sobre o papel destes animais enquanto hospedeiros definitivos do carrapato-estrela, o Amblyomma cajennense, portanto não podemos excluí-los. Ou seja, se retirarmos as capivaras continuaremos a ter carrapatos no local, como divulgado posteriormente na mídia. Existe ainda risco em relação a outras espécies de carrapatos, que podem não ser importantes, mas são citados em artigos científicos.

A Secretaria de Saúde não realizou nenhum exame parasitológico nas capivaras do parque, nem mesmo em outras espécies de animais selvagens existentes no Lago do Café, portanto falta conhecer o real papel da capivara neste caso específico.  Baseou-se na literatura, que reúne a capivara, o carrapato e a riquetsia para concluir que existe a possibilidade de transmissão de FM.

Se as capivaras tivessem sido castradas (ou separadas por sexo, o que provocaria brigas e mortes entre os machos) há 2 anos, não teríamos filhotes e o número de animais seria muito menor, acabando naturalmente.  As capivaras não albergam o agente causador em seu sangue por mais de 12 dias durante a sua vida, portanto não são um perigo direto para a população. Elas não precisariam ter sido incineradas por causa da Febre Maculosa, como dito em reportagens. Este procedimento seria somente mais higiênico do que o enterro.

 

2-      Sobre os carrapatos

Os carrapatos Amblyomma cajennense transmitem a Rickettsia rickettsii para os seus descendentes! Este sim é o perigo que não foi prevenido e que continua no parque. Sabendo disso, mesmo assim, pessoas continuam trabalhando e morando no parque sem qualquer equipamento de proteção individual (EPI). Os carrapatos que se alimentaram do sangue das capivaras nestes 2 anos se reproduziram muito. Cada fêmea colocou até 10.000 ovos e nada foi feito para evitar esta situação.  O controle da doença está mais relacionado à presença de carrapatos contaminados do que de capivaras, ou seja, mesmo tirando todas as capivaras do Lago do Café, o risco permanecerá. Os carrapatos vivem entre seis meses e dois anos no mesmo local sem se alimentar.

Hoje se fala em “descontaminar” a área para eliminar o carrapato-estrela, o que já tinha sido decidido em 2008, quando, com certeza, havia menos carrapatos do que hoje. De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Paulo Sérgio Garcia de Oliveira, será feita a remoção da grama (uma camada de dez centímetros de espessura), aplicação de carrapaticida, e limpeza e retirada de toda a vegetação seca para eliminar a infestação de carrapatos. “Essa limpeza deve durar pelo menos este ano”, disse. 

As formas imaturas do carrapato parasitam uma infinidade de animais, mas somente a forma adulta parasita as capivaras, os cavalos e as antas. Alguns trabalhos têm demonstrado a existência de formas adultas de Amblyoma cajennense também em outras espécies de animais silvestres (principalmente tatu, tamanduá, etc). Em laboratório se coloca os carrapatos adultos para se alimentar em coelhos.

Aves de diferentes espécies são infestadas por formas imaturas de Amblyomma cajennense, ou seja, mesmo tirando as capivaras, estes animais podem continuar a trazer carrapatos para o parque. Nada nos garante que carrapatos infectados com a bactéria não cheguem ao parque por esta via. 

 

Pergunta 1: Onde será descartada esta terra/vegetação cheia de carrapatos retirada do parque?  A Como divulgado na mídia uma empresa terceirizada retirará essa camada de vegetação contaminada com milhares de ovos e adultos de carrapato-estrela, mas será corretamente monitorada?

 

Pergunta 2: A Prefeitura irá incinerar essa terra?  O volume deve ultrapassar, segundo cálculos iniciais, em algo como uns 1850 caminhões basculantes de terra, vegetação e entulho.

 

Pergunta 3: Há necessidade de autorização do IBAMA? Este órgão ambiental rege apenas sobre a tutela de animais sob a guarda oficial do Estado, tendo sido, aliás, bastante condescendente em relação ao sacrifico das capivaras. Quem vai autorizar? A Sucen, o órgão estadual de saúde?

 

Pergunta 4:  Por que o controle de carrapatos não foi realizado antes? Afinal, tudo deve ser feito para minimizar riscos à pela saúde pública!

 

Algumas tarefas deveriam ter sido realizadas para controlar os carrapatos do Lago do Café desde 2008, mas nada foi feito, provavelmente porque exigiria planejamento, envolvimento de pessoas realmente preocupadas com o controle, e o custo, que talvez fosse maior do que o do sacrifício dos animais.

1-      Limpar o local, ao redor do “isolamento” das capivaras e passar inseticidas a cada 15 dias para eliminar os carrapatos da área. Piretroides são largamente usados, considerando sua baixa toxicidade para o meio ambiente e para o homem.

 

2-      Aplicar produtos a base de Doramectina ou Moxidectina nas capivaras, injetável ou via oral, a cada 30-45 dias, até a redução drástica dos carrapatos. Com as capivaras livres de carrapatos, o ideal seria transferi-las para um local mais apropriado.

 

3-      Roçar todo o parque quinzenalmente para que o sol aja sobre os ovos do parasito, diminuindo sua viabilidade.  Estes 3 primeiros itens dependem planejamento,  comprometimento e disciplina.

 

4-      Testar a presença da Rickettsia rickettsii nas capivaras e divulgar os resultados. Testar com pelo menos 2 métodos diferentes para confirmação de positividade ou até da negatividade.

 

5-      Identificar as espécies de carrapatos e a sua infecção pela Rickettsia ricketsii.

 

6-      Castrar os animais para evitar sua reprodução.

 

7-      Microchipar todos os animais e monitorá-los com coletas de sangue por equipe de técnicos especializados e interessados.

 

8-      Divulgar os relatórios do monitoramento.

 

9-      Lembrar que o carrapato estrela (Amblyomma cajennense) usa três hospedeiros, ou seja, sobe e desce por 3 vezes em algum animal ou humano (não necessariamente só na capivara). Sabemos que no parque existem outros animais silvestres e até humanos que lá vivem ou trabalham. Matando as capivaras os carrapatos subiriam nestes outros hospedeiros, o que obviamente não ajudaria na “limpeza” do parque.

 

10-  Como já divulgado por outros pesquisadores especialistas, mesmo matando as capivaras o parque só poderia ser aberto à população (incluindo aos que lá habitam ou trabalham) após 2 anos,  utilizando incessantemente todas as armas contra os carrapatos. O foco desta discussão realmente não é a capivara, mas a falta de um controle ambiental que deveria ter sido realizado desde 2008 e não o foi.

Infelizmente o centro de Pesquisas sobre Febre Maculosa, proposto inicialmente nunca foi instituído no Parque Lago do Café.

Sabemos que a morte nunca foi a solução acertada, mas, geralmente, a mais conveniente para alguns... e talvez a mais barata.
 

A Dra. Ingrid Menz é veterinária, formada pela USP com doutorado na Alemanha, trabalhou 5 anos no Butantã e 30 anos na indústria veterinária, com ênfase em vacinas e enfermidades infecciosas. Atualmente é credenciada na pós-graduação da UNICAMP (Biologia), trabalha com Leishmaniose e é presidente de uma ONg de proteção animal.

 

 

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