Estudo mostra a prevalência de bactéria em crianças de diferentes classes sociais

Premiada, pesquisa da FCM constata relação entre infecção e condição socioeconômica
 

CARMO GALLO NETTO
 

O professor José Murilo Robilotta Zeitune, coordenador do estudo, com três das pesquisadoras que participaram das investigações: diagnóstico precoce é importante (Foto: Antoninho Perri)O Helicobacter pylori, assim chamado porque tem formato de hélice, é uma espécie de bactéria que infecta o revestimento mucoso do estômago humano. Úlceras pépticas, gastrites e certos cânceres do estômago são causados por sua infecção, que afeta 50% da população mundial, revelando-se mais alta nos países em desenvolvimento. A bactéria é geralmente adquirida na infância e persiste na vida adulta quando não tratada.

Estudos sugerem que há forte correlação entre a condição socioeconômica da população e a prevalência da infecção. Apesar da renda familiar estar diretamente ligada à prevalência, outros fatores estão relacionados à aquisição da infecção, entre os quais a qualidade da água ingerida, condições de higiene, densidade de moradores que compartilham o mesmo quarto e condições de saneamento básico.

Partindo dessas constatações, estudo coordenado pelo professor José Murilo Robilotta Zeitune, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e do Gastrocentro da Unicamp – que teve também a participação da farmacêutica Nancy F. Nashimura, das biólogas Natalícia H. Hara e Elizabeth Maria A. R. Gonçalves e dos pesquisadores Maria de Fátima Servidoni, José Miguel Luz Parente e Schlioma Zateka – foca a prevalência da infecção pelo Helicobacter pylori na infância em diferentes níveis socioeconômicos em dois Estados do Brasil.

O trabalho foi premiado pela Federação Brasileira de Gastroenterologia, por ocasião da realização da VIII Semana Brasileira do Aparelho Digestivo, em Brasília, em outubro último.
Foram estudadas 218 crianças, de 0 a 6 anos, de Teresina (Piauí) e Campinas (São Paulo), distribuídas por três grupos de acordo com a renda familiar. Os resultados apontaram que a prevalência em crianças provenientes de famílias de baixa renda é de 47,8%, contra 13,5% e 3,2% para as crianças oriundas de famílias de rendas média e alta, respectivamente. Outra constatação é que 16,7% das crianças de famílias de baixa renda são infectadas desde os primeiros meses de vida; 20% das crianças de famílias de renda média são infectadas a partir do primeiro ano de vida; enquanto 18,1% das crianças de famílias de alta renda são infectadas somente a partir do terceiro ano de vida.

Segundo o professor Zeitune, a análise dos resultados permite concluir que a maior prevalência da infecção ocorre em crianças com baixo nível socioeconômico e que a aquisição da infecção ocorre precocemente nessas crianças ainda nos primeiros meses de vida.

O pesquisador enfatiza que o diagnóstico da infecção pelo H. pylori foi realizado através da pesquisa do antígeno fecal da bactéria (HpSA), utilizando método imunoenzimático, não-invasivo, e que a avaliação de sua eficácia é importante no diagnóstico da infecção em crianças porque elimina a necessidade da endoscopia, causadora de sofrimentos para as crianças e de tensões para seu pais, além do custo e do tempo envolvido.

Os dados apresentados no estudo revelam que o HpSA pode ser considerado, segundo os pesquisadores, um bom método para o diagnóstico da infecção pelo H. pylori na população pediátrica, pois além de apresentar resultados semelhantes aos obtidos pelos métodos mais freqüentemente empregados – histologia e teste da uréase – o HpSA é um método não-invasivo de fácil execução.

O professor Zeitune lembra que o trabalho faz parte de pesquisa antiga desenvolvida no Gastrocentro da Unicamp, que vem estudando essa bactéria. Mais recentemente, a unidade tem adotado métodos mais modernos de diagnóstico, envolvendo também a área de biologia molecular, que desvenda a estrutura da bactéria. O método não-invasivo, utilizado desde 2000, foi padronizado no Laboratório de Bacteriologia do Gastrocentro. Ele o considera fundamental em vista da prevalência da bactéria em crianças. A sua detecção pode ser então realizada através das fezes e não mais através de fragmentos retirados do estômago na endoscopia, o que torna o exame caro, desconfortável e com riscos.

O pesquisador afirma ainda que cerca de 60% dos cânceres do estômago provavelmente estão relacionados a essa bactéria e se desenvolvem em pessoas infectadas na infância e, por isso, é importante verificar a presença da H. pylori na criança, utilizando métodos eficientes e práticos. Ele entende que o diagnóstico precoce deve levar ao desenvolvimento de terapias e de programas de prevenção, embora ainda não se saiba como efetivamente ocorre a transmissão da bactéria, que se considere afeta a condições sanitárias precárias.

Os estudos levaram ainda a uma constatação interessante: os índices de prevalência da bactéria são diferentes quando comparados aos de crianças das classes altas de Campinas e Teresina, o que mostra que as condições de saneamento básico locais têm influência na transmissão.

Do site da Unicamp


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