Violência em Barão Geraldo
- 2012 -

 

Lamentável, indignante, um ultraje? Nem sei se algum desses adjetivos consegue representar a situação que vivemos. Logo mais estamos indo às urnas, ano passado teve a palhaçada do “reajuste” salarial dos vereadores, mas minha dúvida é: será que estaremos vivos até lá para participar de uma votação que teoricamente deveria fazer diferença? Não estou questionando o destino, mas o acaso e descaso que estamos vivendo. E me pergunto até aonde o descaso é do poder publico e ate onde o descaso é nosso por não manifestar nossa indignação com a situação.

Quando me mudei para Barão fiquei maravilhada. Uma vila arborizada, estruturada, com vizinhos que estava em amplo crescimento, mas ao mesmo tempo distanciada, reclusa e protegida. Brincava na rua todos os dias, conhecia todos meus vizinhos por nome e frequentava a casa deles. Minha escola era minha segunda casa e meus colegas eram meus outros irmãos. As férias representavam meu nirvana. Saía cedo de casa e voltava com o berro da minha mãe dizendo que já era noite e eu precisava jantar, tomar banho e dormir. Frequentei as quadras, fiz ginastica olímpica e basquete na Unicamp, ia de bicicleta pro colégio, ia comer amora perto do Mc. Vi o Mc nascer, vi o Tilli mudar e remudar. Tinha um cantinho especial perto das quadras que sempre considerei o lugar mais bonito pra ver o pôr-do-sol. Vi casas serem construídas, terrenos não serem mais baldios e vi o progresso acontecer. Aproveitei e desfrutei dos benefícios que esse distrito podia me oferecer, mas os tempos passaram e como passaram.

Hoje com 27 anos vivo dividida num conflito pessoal pesado. Dividida entre o amor e ódio por esse distrito que considero meu, seu, nosso. O amor existe pela esperança que tenho que essas recordações sejam passiveis de resistirem dentro de nosso cotidiano e era. Ódio pelo medo, constante pavor que sinto, dia após dia, minuto após minuto. Aos 14 anos fui assaltada pela primeira vez. Muitas noites passei em claro relembrando o ocorrido e questionando Deus o que minha família tinha feito de errado para ser castigada daquela maneira. Invadiram nossa casa, bateram em minha mãe e irmã, ficavam apontando armas e nos fazendo ameaças. Privaram-nos da sensação intrínseca de segurança, de que nossa casa era nosso lar e que nenhum mal fosse nos alcançar. Seis meses depois fomos assaltados novamente. O que eu não citei foi que tivemos sequelas pelo assalto. Minha irmã teve síndrome do pânico e isso refletiu diretamente no segundo assalto.

Meu pai chegou em casa e não chamou a segurança – fato que temos que pagar segurança particular para termos uma vaga sensação de segurança – e foi abordado no momento que entrava em casa. Minha irmã não acreditou nos suplícios de meu pai implorando para que abrisse a porta, devido à crise de pânico que ela estava vivenciando e relembrando do ultimo ocorrido, e escutei fazerem contagem regressiva para decidirem se meu pai sobreviveria ou não. Abri a porta para salvar meu pai no penúltimo segundo em que um ser humano tinha tomado à posição de Deus e a vida de meu pai estava em suas mãos e em nossa responsabilidade em abrir a porta antes que a contagem regressiva acabasse. Tranquilo não é? Mais uma vez policia, depoimento, boletim de ocorrência. E então recebemos a ligação de que tinham achado nosso carro 10 quarteirões de casa e tivemos a péssima noticia: nosso carro tinha sido usado para trazer pavor para mais 6 outras famílias. Que peso e responsabilidade que senti em minhas costas. Pela falta de habito em chamar a segurança particular, bandidos conseguiram trazer pânico e privação de segurança para 6 outras casas como a minha, que antes eram invioláveis e depois nem mais vinte fechaduras trariam segurança.

Mas cresci. Dez anos se passaram e o forte pânico foi embora junto com meus anos de juventude. Mas hoje me encontro com o mesmo pavor e medo que tive na primeira vez que apontaram uma arma em direção de minha cabeça. Prazer; sou a Danielle e sou empresária. Dona de comércio e humanamente assustada com os relatos e casos que vem ocorrendo nesse distrito que um dia chamei de meu, seu, nosso. E hoje sou uma baronense assustada, incomodada, indignada, apavorada e desacreditada com a atual situação em que vivemos. Reclusão? Sim, vivo em reclusão atrás da prisão de grades que tive que construir ao meu redor para me dar a falsa sensação de proteção. E o pior, me peguei presa num cinismo em acreditar ser “ok” ser assaltado de vez em quando e ficar só revoltada quando o cúmulo do cúmulo, como mirar uma arma em uma criança como espécie de barganha ocorria. CHEGA! Não quero mais viver nesse cinismo em acreditar que tudo bem no mundo atual algumas pessoas sofrerem assalto. Como se fosse um cálculo correto de desvio padrão que alguém tinha que pagar esse preço.

Os últimos relatos que me incomodaram muito: a Praça do Coco ser assaltada 3 vezes em uma semana, fazerem de refém uma família mirando nos filhos a arma para usar isso como barganha, assaltarem a mão armada um homem na av. Santa Isabel as 14:30 da tarde, fazerem arrastão na saída de escola infantil, estuprarem/assassinarem/queimarem uma menina no Real Parque, as estudantes alvo de sequestro e estupro ao voltar para casa da Unicamp, assaltarem estabelecimentos comerciais como Oba, Bar da Coxinha (fizeram arrastão), Sapore Pizza, estabelecimento em frente a moradia e assim vai. E agora eu que estou na rota do crime aqui com minha lanchonete estou acreditando que qualquer dia desses será minha vez. E surge então minha segunda duvida: devo me preparar para o inevitável e rezar para que não machuquem ninguém ou devo simplesmente berrar em protesto porque não acho certo ou justo eu ou qualquer pessoa passar por isso. O inevitável ocorreu, mas queria que tivesse sido evitado. Pode ser um ideal lúdico, mas deveria ser algo palpável e concreto que todos fossemos permitidos a ter a dádiva da segurança. Dádiva porque a única solução aparente é confiar em Deus porque o mundo dos homens ficou um lugar muito feio e ruim pra se viver e aparentemente ninguém quer que mude essa vergonhosa situação.

Na Globo disseram que a atual situação em que nos encontramos em Barão Geraldo se deve a falta de formalizar as ocorrências perante a policia. Mas mesmo que as pessoas oficializem, quanto mais é necessário para que deixemos de ser estatística e passemos a moradores indignados que necessitam e exigem maior policiamento? Estamos num momento que prevenção de crime já não faz diferença, pois creio ser estado de calamidade esse mundo sem dono, sem respeito à vida humana em que nos encontramos. O dia que a arma e um homem passaram a poder ditar meu destino e se sou merecedora de viver, foi o dia em que meu pavor voltou e não sinto segurança em respirar. Ontem no trabalho me senti desmerecendo a humanidade. O pavor me cegou e me deixou preconceituosa. Parava motoqueiro ou entrava homens em grupo, já ficava em posição de rendição pronta para entregar o dinheiro e implorar pra não lesar ninguém. Com medo por mim, pelos colaboradores e pelos clientes me tornei preconceituosa diante de clientes que só queriam apreciar nosso cardápio. Senti vergonha, mas ao mesmo tempo essa é sempre mascarada pelo companheiro e fiel medo.

Espero mudanças, espero coibição da violência, espero esperançosamente que essa situação privativa e desnecessária deixe de ser a realidade diária de Barão Geraldo. Espero ação. Ou melhor, reação diante da iniciativa dos bandidos em não terem respeito por nada, por horário, por pessoas, por crianças e pela vida em si. Desculpe-me, errei. Desde quando bandido sabe o que é respeito? Já que vem e tiram das pessoas honestas, que trabalham jornadas de 44 horas ou mais por semana, que pagam seus impostos, luz, agua, aluguel, seguro, parcela do carro, segurança privada e no final do mês está negativo, pois tudo foi como investimento pelo sua mera sobrevivência.

E ai baronenses, de quem é a culpa? Do poder publico que deveria atestar estado de calamidade e unir esforço de policia civil e militar e entrar com uma reação ofensiva para extinguir essa situação lamentosa que vivemos ou nós, baronenses, que nos acomodamos e entramos nessa inércia (que nem eu entrei) em aceitar essa situação como se devêssemos ser penalizados por ser honestos e batalhadores? Pra mim chega, não quero mais ter parcela de culpa dentro dessa equação. Não acredito que devemos sofrer as consequências de falta de planejamento urbano, pelo âmbito governamental, em fazer vista grossa e pouco caso pra atual situação que vivemos. A Rossi quer fazer um novo empreendimento, sou contra também, mas antes de me preocupar se o transito vai piorar ou se a subestação de esgoto vai dar conta desse aumento populacional daqui a 2 anos, me preocupo com o presente pois é somente esse que tenho o poder de mudar. E a realidade atual e nosso maior problema é: BARÃO GERALDO E CAMPINAS ESTÁ COM ALTÍSSIMA TAXA DE CRIMINALIDADE e isso precisa ser mudado. Abriram uma delegacia aqui, mas os crimes não diminuíram. Pela logica esse fator não deveria ser o contrario?

Policia = menor criminalidade?

MITO!

Realmente POLICIA PARA QUEM PRECISA, POLICIA PARA BARÃO PORQUE A GENTE PRECISA! Mas de indignada, desacreditada, sem esperança, só passo de uma solitária baronense que decidiu fazer um relato em desabafo do medo que estou sentindo nesse momento, sentada atrás do caixa pronta pra levantar a mão em sinal de rendimento ao primeiro bandido que entrar aqui e levar o fruto de meu duro e difícil trabalho. Então termino cínica e amarga pensando nas sabias palavras de Bezerra da Silva: “Para tirar meu Brasil dessa baderna, só quando o morcego doar sangue e o saci cruzar a perna”.

Danielle Batocchio

Empresária de Barão Geraldo

 

 

 

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