Representação

Texto de Paulo Porto Borges(*).

Desde a década de 80, vem ocorrendo um boom da linguagem fotográfica em diversas área, seja no mercado editorial, com várias publicações sobre o tema, com destaque para a trilogia de Sebastião Salgado(1) Os Trabalhadores, Terra e An uncertain grace, seja em nosso dia-a-dia através da forte presença da mídia neste início de século. É de se notar rápida proliferação dos chamados cursos de fotografia, que vão desde cursos simples com a duração de oito horas, até escolas mais especializadas como a recém-inaugurada Faculdade de Fotografia do SENAC(2).

Firenze - Juliana Morelli

Este movimento também se reflete de maneira intensa e positiva nos trabalhos de ciências humanas. Haja visto a profusão de oficinas de fotografia básica junto ao público acadêmico e a importância que certos departamentos de ciências humanas vem dando a este tipo de instrumental, criando laboratórios fotográficos e cursos de fotografia em suas dependências nos quais "um número cada vez maior de antropólogos, sociólogos e historiadores vem examinando o uso de iconografias, fotografias, filmes e vídeos como tema, como fonte documental, como instrumento, como produto de pesquisa ou, ainda, como veículo de intervenção politítico-cultural".

Entretanto, como trabalhar uma fotografia? Como traduzir e interpretar seu texto visual? Como transformá-la em fonte histórica?

Dinamarca - Thomas Popp Raizes - Juliana Morelli

Em sua obra intitulada A câmara clara, que em pouco tempo tornou-se clássica, Barthes(3)  responde a essa pergunta ao procurar de maneira intensa, entre as diversas fotografias que possuía de sua mãe, uma que emanasse "a verdade do rosto que eu amara". E, após, finalmente, encontrá-la, Barthes furta-se de mostrá-la ao leitor, afirmando que:

"(...) não posso mostrar a Foto do Jardim de Inverno. Ela só existe para mim. Para vós, não seria mais do que uma foto indiferente, uma das mil manifestações do "qualquer". Ela não pode constituir em nada o objeto visível de uma ciência; não pode criar uma objetividade, no sentido positivo do termo. Quando muito, interessaria ao vosso studium: época, vestuário, fotogenia; mas nela não há para vós qualquer ferida".

 Vietnã - Nick ut

Em sua busca, Rolland Barthes percebe duas manifestações que derivam do registro fotográfico: o studium e o puctum. O primeiro representa a moldura histórica da foto, "um campo que reconheço facilmente em função do meu saber e minha cultura". Como na clássica foto do norte-americano Nick Ut(4), na qual reconhecemos a guerra do Vietnã através dos soldados americanos e do semblante transido das crianças vietnamitas com suas roupas ardendo em nalpam.

O segundo, o puctum, representa a dor pessoal e intransferível que somente eu, detentor de uma vivência única, sinto enquanto espectador ao ler aquela foto - o puctum da fotografia é "este acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala)".

A escritora Marguerite Duras(5) também descreve uma fotografia de sua mãe e, assim como Roland Barthes, apresenta-nos uma gama de significados e perguntas que são despertadas e elaboradas por este mesmo registro fotográfico. Indagações visíveis apenas para quem reconhece na mulher que "comprou o chapéu cor-de-rosa de abas caídas e larga fita preta" a figura de sua mãe.

"Aquela que comprou o chapéu cor-de-rosa de abas caídas e larga fita preta é ela, a mulher de certa fotografia, é a minha mãe. Reconheço-a melhor ali do que em fotos mais recentes. Trata-se do pátio de uma casa no Pequeno Lago de Hanói. Estamos juntos, ela e nós, seus filhos. Tenho quatro anos. Minha mãe está no centro da fotografia. Lembro-me do seu porte desgracioso, dos lábios que não sorriam, do modo como esperava que tirassem logo a fotografia. Pelos traços cansados, uma certa desordem de postura, a sonolência do olhar, sei que fazia calor, que ela estava extenuada, que se aborrecia. Mas é o modo como estamos vestidos, nós, seus filhos, como infelizes, que reencontro um certo estado de espírito que às vezes dominava a minha mãe e do qual, já naquele tempo, naquela idade que tínhamos na foto, sabíamos perceber os sinais precursores, aquela atitude, exatamente, que assumia, de repente, de não querer mais nos dar banho, nos vestir, nem mesmo nos alimentar. Esse grande desânimo de viver minha mãe tinha-o todos os dias. Às vezes durava, às vezes desaparecia de noite. Tive sorte de ter uma mãe desesperada de um desespero tão puro que até mesmo a feliidade de viver, por mais viva que fosse, às vezes não podia afastá-lo totalmente. O que sempre vou ignorar são os fatos concretos que a levavam cada dia a nos abandonar à própria sorte. Naquele dia talvez tivesse sido aquela tolice, aquela casa que ela acabava da comprar - a da fotografia - da qual não precisávamos, e quando meu pai já estava doente, tão perto da morte, uma questão de meses. Ou talvez acabasse de saber que também estava doente, com a doença que o matou? As datas coincidem. O que ignoro, e ela também devia ignorar, é a natureza das evidências que atravessavam e que lhe provocavam esse desânimo. Seria a morte de meu pai, já presente, ou a morte do dia? O questionamento daquele casamento? Do marido? Dos filhos? Ou a dúvida mais generalizada de tudo aquilo?"

Do site Société Marguerite Duras

Qualquer outro espectador poderia, através da moldura histórica contida nesta fotografia descobrir elementos da antiga Indochina, ou mesmo, com um pouco de sorte, reconhecer a mãe da célebre escritora que, posteriormente, se tornaria Marguerite Duras. Porém, apenas a própria escritora poderia construir tantas indagações, dúvidas e feridas á respeito daquela imagem.

Toda imagem fotográfica possui "feridas" e "dores" pessoais e intransferíveis. Ou mesmo informações ocultas, ainda que bem objetivas, como no caso do fotógrafo "aprendiz" Mario de Andrade quando buscava fotografar as diversas borboletas amarelas que encontravam-se juntas aos trilhos da ferrovia Madeira-Mamoré. Porém, devido baixa velocidade da máquina e a utilização de um filme preto e branco, o que se vê na fotografia não são as borboletas do poeta, mas apenas manchas brancas e borradas. Se o poeta não nos avisasse através de uma legenda jamais perceberíamos as borboletas. Como, chateado, reconhece o próprio Mario:

"Na verdade eu estou sentado nestes trilhos de Porto Velho por causa das borboletas que estão me arrodeando, amarelinhas e a objetiva se esqueceu de registrar. Era para fotar as borboletas."

Entretanto, assim como Mário não conseguiu "fotar" a contento as borboletas da Madeira-Mamoré, o fotógrafo não tem, ou ao menos, não deve ter, a pretensão de espelhar a realidade com sua máquina fotográfica. A fotografia, como qualquer reprodução, apenas representa uma faceta da realidade que envolve o fotógrafo, no caso, o autor da foto. 

Caminhada - Lorens Bell

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Napoli - Juliana Morelli

O fotógrafo, de acordo com sua sensibilidade, seleciona os componentes que participarão do quadro a ser registrado. De acordo com a posição escolhida pelo fotógrafo, poderá incluir ou não as paredes de uma construção ou privilegiar uma paisagem desértica que, caso inclinasse sua câmara para esquerda, ela desaparecia da composição, dando um novo significado ao registro visual. Esta escolha de um "ponto de vista" denuncia a parcialidade do registro fotográfico. 

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Ao contrário do que possa parecer, a fotografia não possui uma "linguagem universa
l, diferentes personagens entenderão de diferentes maneiras uma mesma imagem. O caráter polissêmico da fotografia, permite ao leitor elaborar significados a partir da imagem e dar-lhes novos sentidos. Porém, estes significados atribuídos, aparentemente de forma arbitrária, não são aleatórios. São interpretações direcionadas pela vivência e sabedoria do leitor, que, apesar de múltiplas e variadas, pertencem a uma determinada época e tradição.  
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Kafka - Foto arquivo Djweb

Quando Walter Benjamin(6) analisa e descreve um retrato infantil de Kafka, detêm-se no que ele chama de "olhos incomensuravelmente tristes" do escritor. Talvez, um outro observador que não conhecesse a criança que posteriormente revelaria-se o autor de A Metamorfose, não percebesse tamanha tristeza no olhar daquele garoto tímido.

A maneira como estes significados vão sendo elaborados e decodificados, nos permitem estabelecer algumas relações com outros dados complementares e, dessa forma, irmos construindo novas reflexões.

Conforme o historiador francês Fernand Braudel(7) - "há acontecimentos de aparência espetacular que desaparecem, sem deixar rastros, como há também pequenos acontecimentos que, repetidos, servem para desvendar uma realidade muito importante". 

O fotógrafo Ivan Lima completa - "por essa razão, tanto a fotografia que poderá representar um fato ou um acontecimento histórico, como a fotografia que poderá fornecer subsídios para a compreensão desse acontecimento, poderá ser útil apenas na conclusão do período histórico ao qual o fato ou um acontecimento está ligado. 
O conhecimento da Fotografia e da História são fundamentais nesta primeira seleção, maleável e generosa".

Rio Amazonas - 1865 - A. Frish(8)

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E, caso considerarmos, que todo "acontecimento" é potencialmente histórico, dependendo, novamente, das perguntas a serem feitas pelo pesquisador, podemos afirmar que toda fotografia, assim como os acontecimentos que estas registram, são potencialmente históricas para o pesquisador. Ou seja, toda a fotografia carrega intensa humanidade, a despeito dos procedimentos técnicos e mecânicos, toda imagem fotográfica é passível de interpretação e leitura.

Borboleta - Foto Lorenz Bell

A fotografia, antes de tudo, é um testemunho. Quando se aponta a câmara para algum objeto ou sujeito, constrói-se um significado, faz-se uma escolha, seleciona-se um tema e conta-se uma história Como já disse Francesca em As Pontes de Madison : "Não são fotografias. São histórias".


(*) Historiador,  fotógrafo, doutor pela Faculdade de Educação da UNICAMP, professor de Fotografia do curso de Jornalismo da FAG/PR e membro do Grupo Memória/FE.  Há nove anos desenvolve trabalho de escolarização e formação política junto a povos indígenas do Brasil, em especial com o povo Guarani dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. http://www.djweb.com.br/historia

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