Mestre Ambrósio

Ritmo e dança que vem do nordeste

Em outubro de 1992, surgia em Recife uma banda denominada Mestre Ambrósio, composta por jovens que têm suas influências essencialmente na música nordestina, na música de Luiz Gonzaga, de Jackson do Pandeiro, tocando e dançando o maracatu, o coco de embolada, o baião, a ciranda. Eles vieram com o propósito de fortalecer o que tem de melhor no Nordeste do Brasil, com uma cara jovem, sem no entanto se afastarem de suas raízes e tradições. O nome da banda, Mestre Ambrósio, é um personagem do cavalo marinho, um folguedo típico da zona da Mata Norte de Pernambuco. É uma espécie de Bumba-Meu-Boi, que é encenado na rua. A banda Mestre Ambrósio é formada por Siba (rabeca, viola, guitarra e voz), Hélder Vasconcelos (fole de 8 baixos - tipo de sanfona, percussão e vocal), Mazinho Lima (baixo, triângulo e vocal), Sérgio Cassiano (percussão e vocal), Maurício Alves e Eder "O" Rocha, ambos percussionistas. Ao longo de sua carreira, a banda além de se apresentar em vários estados do Brasil, já esteve na Bélgica, Espanha, Alemanha, Portugal, Luxemburgo e Estados Unidos. Em entrevista ao HP, Siba e Hélder, falam o porquê da escolha do nome da banda, de suas origens na música, suas influências e de seu mais recente trabalho, o CD "Fuá na casa de Cabral"

Hélder : - O básico do nosso trabalho é a necessidade de retomarmos nossos próprios valores. Nos identificarmos como brasileiros, nordestinos. Antes da música propriamente dita, o que estávamos formando era uma identificação pessoal. Até chegar ao Mestre Ambrósio foi preciso muitas mudanças pessoais, na forma de ver as coisas. Para nós não foi uma descoberta, mas uma redescoberta de nós mesmos. A partir daí pudemos amadurecer, e ver o que éramos, o que estava próximo. A música do Mestre Ambrósio é a música nordestina. É o que o somos. Só que não podemos nos conectar só com o que ficou para trás. Todos nós recebemos uma formação urbana. Recife é uma metrópole como qualquer outra em relação aos problemas urbanos. Isso também faz parte de nós. As influências externas também. Todos nós escutamos rock, jazz, pop. Então o conceito do nosso trabalho é fazer uma música nordestina, mas que ao mesmo tempo esteja conectada com outras informações que também recebemos, sem deixar de sermos nordestinos. Aí não precisávamos nos perguntar qual era o caminho. Era só fazer o que estava dentro de nós. O que tínhamos era essa música pernambucana, e todas as outras influências iriam entrar naturalmente. Fomos percebendo isso também no palco, no modo de nos comunicarmos com o povo. Tudo que fazemos é nordestino, é o modo de se expressar nordestino.

 

Ritmos e universos simbólicos

Siba: - A banda Mestre Ambrósio não está vinculada a um gênero, nem ao forró. Muitas vezes se associa o nosso nome ao forró. Não somos uma banda de forró. Mas também não somos uma banda de maracatu, nem de coco. Misturamos vários ritmos, não só ritmos, pois a coisa não se resume só a ritmos. Além dos ritmos, têm os instrumentos, o jeito de cantar, as melodias, as formas poéticas, universos simbólicos. Tudo isso está ali, e as vezes os gêneros em si como eles são até hoje, ou como eles já foram. Somos seis pessoas que beberam em fontes diferentes. Fomos juntando. As vezes a música pode ter um ritmo de coco, mas tem uma levada de umbanda, de caboclo, tem o cavalo marinho, o baião de rabeca de cavalo marinho, a viola de repente, ou tem uma forma poética em decassílabo.

Hélder: - Estamos fazendo uma coisa muito própria. Não se fez isso até hoje. Tanto que as instrumentações que fazemos são baseadas no que cada um faz melhor, e no que percebemos que se conecta com um e com outro. Nunca se usou um ilu (instrumento usado nos terreiros de candomblé, de umbanda - tambor feito de madeira com couro nos dois lados) com uma zabumba. No terreiro de candomblé se usa o ilu com a maraca. No forró se usa o triângulo e a zabumba. As vezes usamos zabumba e triângulo, e noutras, a rabeca e o fole, justamente por causa dessas conexões que fomos fazendo. Não é o ritmo, é a brincadeira como um todo, a dança, a expressão. Elucidamos o coco, o maracatu, o cavalo marinho, o candomblé, o baião, elementos da ciranda.

 

Atualidade sem abrir mão da tradição

Siba: - Acho que contribuímos para a cultura popular mostrando uma cara diferente de como normalmente se vê o Nordeste, um novo jeito de ser nordestino; na música, na dança, nas artes. Não quero dizer que estejamos fazendo melhor. Não é um juizo de qualidade, mas a forma que trazemos é completamente diferente. A forma como juntamos esses elementos todos. É uma consequência das contribuições todas que vieram lá de trás, mas somos de outro momento. O Nordeste está aparecendo com uma nova cara. Também acho significativo nesse trabalho o fato de sermos atuais, sem abrirmos mão da tradição, da autenticidade. Nem sermos radicais, a ponto de rejeitarmos as influências externas, pois crescemos no meio delas também, mas ao mesmo tempo levando muito a sério as nossas próprias raízes. Levamos muito a sério nossa tradição, não só como fonte de pesquisa.

 

Expressão do nordestino

Hélder: - O que estamos fazendo está acontecendo aqui em São Paulo, no Rio, no Nordeste. É uma necessidade de nos identificarmos como brasileiros, como nordestinos. Quantos nordestinos e filhos de nordestinos vivem aqui? Isso está espalhado. Então, a importância que vejo no nosso trabalho, é conseguirmos estar nos grandes meios, com uma forma que é a nossa, ter conseguido dar uma cara ao nosso trabalho, e ter conseguido com essa nossa cara, entrar na grande mídia, aparecer e mostrar exatamente o que somos. Essa necessidade geral está sendo atendida, e está seguindo como exemplo.

A forma de nos expressarmos no show tem relação direta com o que fazemos na música. Por exemplo: o cavalo marinho é um universo de música, de dança, de poesia, de forma de se expressar. E aí, o cavalo marinho, o coco, o maracatu, a ciranda, todas essas formas tem uma forma de expressão corporal associada, que também tem a ver com a forma de expressão do nordestino no seu dia-a-dia, nas suas tradições. Fomos vendo como isso era forte, e tivemos um tempo para mostrar isso no palco. Tivemos trabalho, tivemos percepção dessa força, e tiveram pessoas que contribuíram para isso. Por exemplo, a minha dança tem relação direta com o mestre Grimário, com mestre Inácio, entre outros. Houveram pessoas fundamentais para o que apresento hoje no palco. A Patricia Sene, que é dançarina e pesquisadora graduada na Universidade de Campinas, que se relacionou com a cultura popular de Pernambuco, também teve um papel fundamental para o grupo. Tem uma coisa intuitiva, própria do lugar de onde viemos, mas também o trabalho de pessoas que nos ajudaram a elaborar isso.

 

Ninguém cria nada do nada

Siba: - A forma expressiva de nos comportarmos no palco está ligada a música. Quando tocamos o cavalo marinho, não são só as notas do cavalo marinho, é todo um universo que faz com que aquela música exista. O universo cultural, simbólico. O que fazemos no palco não é coreografia. Não tem nada muito amarrado. Têm elementos que usamos sempre, mas é tudo muito livre, muito improvisado.

É impossível não se ter referenciais. Depois de um certo ponto entram as diferenças entre imitar ou assumir influências e referências. Ninguém cria nada do nada. Não existe nenhuma arte que não seja tradicional, por mais que a gente fale que fulano é revolucionário. Tudo é baseado em algo que veio antes. Todos nós temos que ter referencial, mesmo que seja para negar depois.

Minha escola, apesar de eu ter passado por universidade, foi muito mais informal, mais de ouvido, de aprender tocando e fazendo. Aprendi música ouvindo meu pai cantar, ouvindo discos. Foi assim que aprendi a tocar guitarra, assim aprendi a tocar rabeca no interior, tocando baião de rabeca tradicional dos rabequeiros, e assim por diante. É uma gama de referências, que passou inclusive por Jimmy Hendrix, uma referência super importante pra mim. Ele é músico que vai muito além do rock. É um músico universal. Naná Vasconcelos foi outro muito importante para mim. Ouço hoje muita música dos países árabes, do norte da África. Então, tudo isso te enriquece, te faz compreender melhor a tua própria tradição. Na época que o Mestre Ambrósio começou, os cantores pop africanos eram uma referência para mim, achava que eles tinham resolvido muito bem essa questão da tradição e do moderno. Minha música com o Mestre Ambrósio, em momento algum parece com essa música pop africana, mas foi uma referência importante. Não dá para você reinventar sem manter o vínculo com o passado, e o coração, as raízes, como as coisas nasceram. Não dá para você reinventar o forró sem passar por Luiz Gonzaga, e pelos tradicionais de onde ele bebeu, que são o coco de roda, o coco de embolada, as músicas de terreiro, o repente de viola. Romper com isso é romper com o principal e sem o principal nada existe.

 

Há uma valorização do forró pelo lado melhor dele

Fico feliz de ver hoje, que o gosto pelo forró renasce por aí. As pessoas estão querendo o forró que tenha um vínculo com toda essa história. Não necessariamente que seja o mesmo forró que o Luiz Gonzaga fez, pode estar vindo modificado, mas que sejam modificações naturais. Há uma valorização do forró pelo lado melhor dele. Agora, está faltando uma coisa que é redescobrir os tocadores do fole de oito baixos. Eles estão relegados ao último plano, e são músicos excelentes, de altíssimo nível, como Zé Calixto, como Heleno dos Oito Baixos, como Manuel Maurício foi. Tem muita gente boa no nordeste.

 

Essa retomada rítmica passa por uma necessidade que está intimamente ligada a um sentimento de brasilidade mais profundo

Hélder: - Eu e o Siba temos influências parecidas. Os outros integrantes têm bagagens bem diferentes. Eu me criei em Caruaru, numa vila afastada. Nessa vila, o forró, o São João, estão muito presentes. Minha primeira referência foi Luiz Gonzaga.

Acho que tem uma coisa que temos que separar, com relação as referências gerais do país, e o que está aparecendo na mídia. Essas redescobertas, essas retomadas, quantitativamente são pequenas em relação ao país. Tem um grupo muito grande que nunca deixou de escutar forró e nunca deixou de dançar. Se você for lá no nordeste, no sertão, todo o ano tem um disco de forró que toca muito. Pode ir mudando, podem entrar coisas do tipo Mastruz com Leite - aqui e acolá, mas tem uma gama enorme de pessoas que nunca foram e nem voltaram; estão lá do mesmo jeito que sempre estiveram. Agora, esse público novo, que está descobrindo, acabou sendo fundamental pra essa história voltar à mídia. São universitários, classe média, que têm influência, que têm ligação direta com a grande mídia.

Tem uma coisa que eu defendo, que é considerarmos o baião como a célula mais brasileira, ritmicamente falando. Se tiver uma célula que possa unir essa diversidade, acho que é o baião. O baião está no Brasil inteiro. Está na música gaúcha,no Acre..., sei lá, está no Brasil. Essa retomada rítmica passa por uma necessidade que está intimamente ligada a um sentimento de brasilidade mais profundo, que está na vibração que essa música causa, na freqüência da sua batida. É uma coisa de alma. Ouviu, bateu.

Hoje não existe mais aquela influência negativa que existiu nos anos 80, da americanização, do rock, de que moderno era uma guitarra, um baixo e uma bateria. Esses esteriótipos estão caindo, então começa a aparecer o que é nosso. As pessoas estão batendo ouvido naquilo ali e perguntam: o que é isso? É uma coisa natural mesmo, de alma. É começar a escutar e gostar.

 

A tendência é que a qualidade aumente cada vez mais

Siba: - Imaginem! O que era a música brasileira dos anos 80? Vínhamos de 20 anos de ditadura. Naquela época se tocava muito menos música brasileira, e a música brasileira era praticamente rock cantado em português. Hoje temos uma música muito mais brasileira sendo tocada, sem entrar no juizo de qualidade. Estamos num processo. A tendência é que a qualidade aumente cada vez mais, que o público tenha cada vez mais poder de discernimento e possibilidade de escolha. Que o próprio gosto do público, como o que está acontecendo no forró, que está ditando as regras, comece a ditar as regras no âmbito geral. No Nordeste, por exemplo, a notícia que nós temos aqui, é que o público está começando a pressionar as rádios e casas de shows para ouvirem o bom forró. O público está cansado do forró plastificado, se é que podemos chamar de forró. O próprio gosto popular vai se impor aos meios de comunicação.

Nome do grupo faz referência à festa popular de Pernambuco

"O nome Mestre Ambrósio veio do personagem de um teatro de rua tradicional de Pernambuco, chamado cavalo marinho. O cavalo marinho é uma variação do bumba-meu-boi, que só existe em uma região pequena de Pernambuco, onde aprendi a tocar rabeca", diz Siba, um dos integrantes do grupo.

Músicos tocando rabeca, pandeiro, bajes (reco-reco grande), e o mineiro (que é o ganzá), além de danças e vários personagens mascarados, como o Matheus, o Bastião e o próprio Mestre Ambrósio, compõem esse folguedo popular que representa uma festa para os Três Reis Magos. Segundo Siba os personagens, que podem ser até sessenta, representam coisas do dia-a-dia, do trabalho do pessoal da região, e vão contando a história , que tem como base um terreiro, o dono do terreiro, que é o Capitão e feitor da festa, e Mestre Ambrósio, que representa um vendedor ambulante que tenta vender ao Capitão as figuras para a festa. Tem o baile e por fim o Boi, que morre e ressuscita. Esse é o enredo do cavalo marinho, que tem um esqueleto de diálogo usado para se improvisar.

"Pegamos emprestado o nome do personagem do mestre Ambrósio, porque ele carrega em si todo o espetáculo, é como um símbolo de variedades e de riquezas, de diversidades, que é o que queremos passar com a música. A música não existia; fomos formulando. Sempre vimos o Brasil, o Nordeste, como uma coisa muito rica, com muitos elementos e muitos contrastes. Precisávamos de um nome que falasse dessa variedade de coisas, e Mestre Ambrósio acabou como um símbolo perfeito pra isso", explica Siba.

 

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